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O VELHO E O RÁDIO

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008 |

Corri com os braços mudos - à volta o silêncio da cena, como quem aguarda em suspenso o próximo ato -, mas foi como tentar segurar o vento, como quem ainda guarda qualquer esperança do tempo de criança. Depois de alguns círculos desenhados no piso de taco da sala de jantar - noite esfriando, janela aberta, muitas luzes de testemunhas –, sentei-me para jantar, olhando para a rua da minha janela humana. Foi uma amiga que o disse: "Esta janela não é igual às outras; é uma janela-humana, posso garantir". Dou-lhe o crédito da nomeação, apesar de acreditar que eu é que a humanizei de fato.

Parecia ouvir alguma música ao longe, algum rádio a pilhas, um homem velho a ouvir qualquer canção melancólica, imagino. Fico pensando, a dizer para mim mesmo: "Será o mesmo velho que eu imaginava, quando criança?". Não sei quanto a ele; porém ouso afirmar que eu, sim, era o mesmo. Não sempre, mas naquele momento de solidão. Lembrei de minha mãe lá longe, em outro país, e fiquei pensando que era assim que ela devia me imaginar aqui no Brasil. Mães têm esse sentimento, essa dose de solidão certa a aplicar aos filhos. Cá estava eu: sentindo-me mãe ao ter me lembrado daquele velho, que eu imaginava ser o dono do rádio a pilhas de minha infância. Fiquei com dó do velho, como se ele, na verdade, fosse um filho meu em outro país, sozinho, pois sem a nossa mãe - e acreditava que o velho, por ser velho, já não teria a dele -, sem nossa mãe somos todos sozinhos. Terminei meu jantar - arroz, feijão, farofa e fritas - e fui lavar a louça. Antes, mais que depressa, desta vez sem marcar círculos no chão de taco, fui correndo fechar as janelas; uma vez que, feito o vento que eu tentara segurar, pareceu-me impossível colocar o velho no colo e contar-lhe alguma coisa que fizesse cessar sua solidão (penso em minha mãe, sinto-a). E minha janela ficou uma janela comum, quase igual às tantas outras que existem por aí, pois havia ainda a louça por terminar de lavar.


1 comentários:

Nathália disse...

Sou antenada em poesia (não por acaso, trabalho como assistente editorial do poeta Ulisses Tavares, conhece?), visitei seu blog e gostei muito.

Olha, se puder, dá um toque para seus blogueiros e amigos olharem o site que gerencio:

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Grande beijo e continue no caminho da poesia que o mundo precisa disso,

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