Novo Blog - CIDADE SOLITÁRIA

Estou com mais um blog, chamado: CIDADE SOLITÁRIA, neste link:

http://jroldao.wordpress.com/

O título, como alguns devem perceber, é inspirado na obra do escritor-médico-português Fernando Namora; uma coleção de narrativas que tem o mesmo nome. Aliás, Fernando Namora é um de meus autores preferidíssimos.

Qual o motivo para criar outro blog? Não sei mesmo porque, mas tanto o Fragmentos de Tempo quanto o Diário Fantástico sempre me aprisionam para determinados assuntos. Tipo, não consigo publicar aqui - trava-me as mãos e os olhos - determinadas coisas; quase sempre coisas que sejam mais pessoais e diretas, opiniões minhas e observações cotidianas. No novo blog pretendo justamente me expor mais - sem, no entanto, descobrir-me muito - e publicar percepções mais cruas e diretas que possam ocorrer em meu cotidiano.

Certamente - muito, muito certamente mesmo (aliás, já ocorreu no primeiro relato) - é impossível pra mim não ficcionalizar algumas coisas, mesmo as mais triviais. Não sei se isso é dom ou uma espécia de cadeia invisível, um labirinto, mas até que me dá bastante prazer realizar tais distorções ou reparos.

Convido-os todos a assinarem o Cidade Solitária, seja para receberem via email ou RSS, e os aguardo com muita alegria nas visitas constantes que possam me conceder!

Bons Ventos!

José Roldão

Gonçalo M. Tavares - O Senhor Valéry era pequenino

«O Senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos. Ele explicava: Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.»

[ Gonçalo M. Tavares - O Senhor Valéry ]

José Saramago - A Ponte dos Olhos

"Apenas conseguia recordar o movimento da sua mão esquerda pegando num verbete em branco, logo a mão direita a escrever, os olhos a passarem de um cartão para o outro, como se, na realidade, fossem eles que estivessem a trazer as palavras dali para aqui".

[José Saramago - Todos os Nomes ]

Reflexõs sobre um excerto de José Saramago

Em certos trechos de livros encontro uma espécie de arte que especialmente aprecio. São momentos da leitura nos quais eu preciso fazer uma pausa e olhar adiante, para a imagem que se afigura na imaginação. Essas imagens se tornam tão "visíveis" que, desse momento em diante, passam a existir na minha memória, e podem ser evocadas a qualquer momento com todos os seus detalhes.

O trecho abaixo selecionado é um desses momentos, uma dessas pontes. A imagem "pequenas capelas desamparadas que tivessem ido agarrar-se ao corpo robusto da catedral", é um espetáculo. O fascinante é que são fornecidos apenas alguns dados, tais como, "capelas" + "desamparadas" + agarrar-se" + "catedral"; porém o quadro inteiro forma-se instantaneamente, e a arte adiciona os elementos que faltam para criar uma tela complexa, com clima, hora do dia, estação do ano, cor das casas, estrutura da catedral, movimento etc.

Vocês, lendo o referido trecho que colo logo abaixo, têm a mesma experiência?

"Ao princípio, um princípio que vinha de muitos séculos atrás, os funcionários residiam na Conservatória Geral. Não propriamente dentro dela, em promiscuidade corporativa, mas numas vivendas simples e rústicas construídas no exterior, ao longo das paredes laterais, como pequenas capelas desamparadas que tivessem ido agarrar-se ao corpo da robusta catedral"

[ José Saramago - Todos os Nomes ]

Fernando Pessoa - Como é por dentro outra pessoa?

    Como é por dentro outra pessoa
    Quem é que o saberá sonhar?
    A alma de outrem é outro universo
    Com que não há comunicação possível,
    Com que não há verdadeiro entendimento.

    Nada sabemos da alma
    Senão da nossa;
    As dos outros são olhares,
    São gestos, são palavras,
    Com a suposição de qualquer semelhança
    No fundo.

    Fernando Pessoa, 1934

Estar a sós, consigo mesmo

"A infelicidade de um homem começa com a incapacidade de estar a sós, consigo mesmo, num quarto" (Pascal).

Vindo para casa

Estava eu andando sob o céu noturno, vindo para esta casa, quando por entre nuvens [ou névoas, não sei ao certo; mas quem saberá?], vislumbrei uma forma luminosa, pronta para atravessar o umbral que nos separa do celeste. Não era circular [poucas são as formas circulares perfeitas e dignas deste nome] nem tampouco angulosa. Confesso: cismei de averiguar durante alguns instantes aquele objeto semi-identificado em minha memória. Não parei meus passos, mas segui adiante [meus olhos retesados; uma sobrancelha levantada] enquanto conversavam no aqui e ali do círculo de pessoas que me acompanhavam [sim... são muitos os círculos, mesmo que imperfeitos].

O umbral celeste [aquelas nuvens que pairavam – ou será que era névoa?] estava desdenhando de minha imaginação, impedindo que a história continuasse, tanto sob o céu noturno quanto sobre os passos ensimesmados. Brinquei dentro do meu círculo e alarguei seu espaço, fazendo com que todos ajudassem aquela forma luminosa a atravessar tão dolorosa abertura. Parecia mesmo que se espremia intensamente [talvez por isso, por estar se espremendo, não fosse perfeitamente circular] e que a qualquer momento fosse cair sobre nós. Muitos sorrisos acudiram desmedidamente, mas não nos esquecemos de soprar com força para cima, fazendo pressão oposta, mantendo tudo em seu devido lugar: nem lá nem aqui, mas sim onde era pra estar.

Claro, como não!, era apenas a lua! Porém a fixação [mania, cisma, moda pessoal, entusiasmo, distração; quantos nomes!] faz com que os sentidos dancem de modos harmônicos [porém numa cena muda para o público], e bailamos desmedidamente até que... até que a moda passa; até que... cansamos. Cansamos! Então buscamos outras distrações [outras, mas que nunca são novas], e seguimos solitariamente bailando, perdidamente apaixonados pela visão no espelho; um corpo girando, girando, mantendo a cabeça o máximo de tempo parada em seu eixo: temos que nos assistir, admirar, extasiar, chamar a atenção [geralmente a nossa própria atenção] até que... enjoamos. Enjoamos, mas não dizemos assim [muito menos pensamos assim... fingimos!]. Então olhamos ao redor – como?! O espelho desaparece, surge o fantasma de nós mesmos.

Quando paramos de bailar [navegar nessas ondas, quem pode saber?], rimos mais ainda e fechamos novamente o nosso círculo: agora estava quase perfeito. Não fomos abduzidos pela lua [nem havia possibilidade, pois éramos muitos – aliás, ainda somos].

Continuei andando, acompanhando o tilintar do chaveiro pendurado em minha mente e cantando ao som da banda de nossos passos, e logo pudemos abrir o círculo: estava nesta casa, finalmente.

Despedi-me do astro principal, que finalmente havia transposto o umbral celeste e nos acenava [ou será que era um daqueles sorrisos lunares rechonchudos, pintados em telas frias?] e normalizei a sobrancelha já cansada. Mantive os olhos retesados, por via das dúvidas. Temos que nos apegar a alguma coisa que demonstre certa seriedade. É o jogo.

Era só a lua mesmo. Só que cismamos de querer acreditar que não seja apenas isso; temos de criar mundos fantásticos e misteriosos: excitação! Qualquer coisa serve, contanto que seja diferente e possamos especular a respeito. Oras, para especular não é preciso muita coisa: basta inventar, concatenar harmoniosamente alguns fatos, imagens que adquiram sentidos sem-sentidos e que por isso mesmo podem ser manipuladas. Batemos muitas palmas ao espetáculo e pode até ter algumas lágrimas nos olhos, tudo isso faz parte, aliás, investimos em tudo isso, ainda é o mesmo jogo. Qualquer coisa serve... por mais que seja descartável.

O Pintor

No alto da serra. Ele apenas observava lá em baixo a cidade. Chegavam-lhe alguns sons abafados: a buzina de um ônibus, a moto riscando os ouvidos; e algumas pausas de silêncio pesado. O vento dançava todos os sons. Ele sentado, observando como quem apenas existe e ponto. Custava-lhe pensar em descer a serra e mergulhar naquela cidade novamente. Era tão bom respirar e poder se extrair do quadro… E foi assim. Decidiu um dia aprender a pintar. Achou que dessa forma prolongaria aquele momento até sempre. Não desejou mais ser um detalhe pintado naquele quadro tão confuso. Melhor ser o pintor e sempre trabalhar na tela, de fora, pincel em punho, olhos abertos, ouvindo sons, enfim, no alto da serra. Então, levantou o braço e com o dedo em riste, escreveu no ar a frase: “Assinado: eu”.

JORGE LUÍS BORGES - UM TEÓLOGO NA MORTE

Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual àquela que possuíra na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram). Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salvação pela . Como era seu hábito, não disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas a interrogá-lo. Melanchton lhes falou: "Demonstrei de maneira irrefutável que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no céu basta a ". Dizia isso com soberba e não sabia que estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram.

Em poucas semanas, os móveis começaram a se encantar até se tornarem invisíveis, com exceção da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Além disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na negação da caridade, foi transferido para uma sala subterrânea, onde estavam outros teólogos como ele. Ali ficou preso alguns dias e começou a duvidar de sua tese e lhe deram permissão de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Uma tarde, sentiu frio. Então percorreu a casa e comprovou que as demais peças já não correspondiam às de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava tão reduzida que era impossível entrar nela; outra não tinha sofrido modificação, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-o, mas como uma das pessoas não tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se então a escrever um elogio da caridade, mas as páginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque eram feitas sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente morta recentemente, mas sentia vergonha de mostrar-se num lugar tão sórdido. Para fazer-lhes crer que estava no céu, entrou em acordo com um feiticeiro dos que estavam na peça dos fundos, e este os enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Era só as visitas se retirarem, reapareciam a pobreza e a cal; às vezes isso acontecia um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mágico e um dos homens sem rosto o levaram até as dunas e que agora ele é como que um criado dos demônios.

SEMPRE AGIA ASSIM...

Sempre agia assim. Corria de um lado para o outro, como se dessa forma pudesse encontrar, aos círculos, a resposta pairando pelo cômodo e, como se a pudesse engolir e digerir, ao invés de ruminá-la; ao invés de saboreá-la e chegar ao cerne da questão. Intentava a solução de todos os problemas em vista. Tolo! Era como o chamavam na maioria das vezes. Para suas dúvidas nunca havia encontrado soluções absolutas. Buscava-as, como quem busca uma nova forma de prazer, mas sabia de antemão que era de sua natureza não se saciar nunca. Por falta de método ou falta mesmo do que fazer passava suas angústias a limpo, diariamente, nesse vai-e-vem tresloucado, com olhos esgazeados, olhando através do ar, como se fosse possível tragá-lo e acumulá-lo em suas entranhas. Ficava assim, sempre assim. Depois, quando o cansaço vencia, por fim, derrubava-se no chão e adormecia. Tolo! E nem dava por si nesse estado. Apenas adormecia. E esquecia-se de si mesmo todos os dias.

[ José Roldão ]

Por que eu me lembro, é que existo um pouco

Vil escuridão! Tantas vezes abatida pelo som de meus dias passados; tantas vezes desmedida! Tentei acender as luzes, mas não havia energia. Fui até a janela, olhei a noite, mas parecia uma noite dos tempos, não a noite que tinha chegado e permanecia atenta - aguardando a primeira janela ser aberta para atacar os olhos ali dependurados.

Gosto da noite com resquícios de vida, mas ao longe. A madrugada (para mim: cúmulo da noite; forte, intensa e solitária), diz-me sempre novidades. Mesmo quando me recorda de algo que eu já tenha vivido, a lembrança carrega de significado o presente abordado.

Não podemos viver só do presente. Somos prisioneiros da memória. Se cada dia fosse único e primeiro, nasceríamos a cada instante; e com o passar de algum tempo (100 anos, exemplifico) teríamos nascido por 100 anos inesperados e desmemoriados, ou seja: não nos valeria ter nascido, caso não existisse o risco de passar o tempo em algum lado.

A memória é a lembrança do eu que vos escrevo. Sem recordações de nada valeria ter acordado e a noite seria apenas dos tempos - caso houvesse alguém para contá-la ou escrevê-la, aí sim, seria a história dos tempos passados. De resto, nem seria história. Seria ansiedade ou esperança! De que? Ah! Disso, não se sabe. Claro! Para saber precisa-se de tempo! E de mais um pouco para lembrá-lo!

Escuto um caminhão que passa na auto-estrada e lembro-me de já ter escutado outro caminhão, só que em minha infância. O que me vale é que o caminhão não é o mesmo, mas os motores se equivalem. O som que corta a noite e atravessa entre os pingos da chuva, este sim, é como âncora que me segura no presente avistado. E por que eu me lembro, é que existo um pouco.

A energia retorna, acendendo as luzes e deixando a noite dos tempos mais conciliável com meu passado. Tudo me parece familiar. Até mesmo o vinho tinto e seco - frio como a noite deslocada da estação; seco como o estalido do piso de madeira, de onde – sobre o qual - eu vos falo.

Espantalho da Morte

"De noite e de dia aquele maldito telefone, transmitindo-lhe a voz irritantemente lastimosa do amigo, perseguia-o por toda a parte. Para o impressionarem, diziam-lhe sempre que o Jaime estava na agonia. Pois que estivesse, com mil diabos! Ele era um médico e não um espantalho que se pregasse à cabeceira de um moribundo para obrigar a morte a manter-se a distância".

[ Fernando Namora, O Homem Disfarçado ]

Chuva Fina

abri a janela do quarto antes de me deitar
a chuva fina e paciente fazia tremer as luzes
grandes de perto, pequenas ao longe
no bairro de minha paisagem noturna
uma nuvem já tão grande chorando

pontos acesos no vazio silêncio das ruas
um radio que toca em algum lugar distante
a chuva fina cobrindo o som que vai e vem
no varal do vento que já quase não sopra
eu na janela e aquele cheiro molhado balançando...

a solidão do mundo
e o mundo todo era meu.

[ José Roldão ]

Juan Ramón Jiménez - O Poço

(A noite desce, e a lua brilha lá no fundo, engrinaldada de estrelas andarengas. Silêncio! Pelos caminhos, a vida, a vida se dilui na distância. Do poço escapa a alma das profundezas. Por ele se vê como que o outro lado do poente. E parece que de seu bojo vai sair o gigante da noite, senhor de todos os enigmas do mundo. Ó labirinto fantástico e silente, umbroso e perfumado parque, salão mágico e encantado!)

- Platero, se um dia eu me jogar neste poço, não será para matar-me, podes estar certo, mas sim para apanhar mais depressa as estrelas”.

[ Juan Ramón Jiménez - Trecho de “O Poço”, da obra “Platero e Eu” ]