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Bons Ventos!

José Roldão

O VELHO E O RÁDIO

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008 |

Corri com os braços mudos - à volta o silêncio da cena, como quem aguarda em suspenso o próximo ato -, mas foi como tentar segurar o vento, como quem ainda guarda qualquer esperança do tempo de criança. Depois de alguns círculos desenhados no piso de taco da sala de jantar - noite esfriando, janela aberta, muitas luzes de testemunhas –, sentei-me para jantar, olhando para a rua da minha janela humana. Foi uma amiga que o disse: "Esta janela não é igual às outras; é uma janela-humana, posso garantir". Dou-lhe o crédito da nomeação, apesar de acreditar que eu é que a humanizei de fato.

Parecia ouvir alguma música ao longe, algum rádio a pilhas, um homem velho a ouvir qualquer canção melancólica, imagino. Fico pensando, a dizer para mim mesmo: "Será o mesmo velho que eu imaginava, quando criança?". Não sei quanto a ele; porém ouso afirmar que eu, sim, era o mesmo. Não sempre, mas naquele momento de solidão. Lembrei de minha mãe lá longe, em outro país, e fiquei pensando que era assim que ela devia me imaginar aqui no Brasil. Mães têm esse sentimento, essa dose de solidão certa a aplicar aos filhos. Cá estava eu: sentindo-me mãe ao ter me lembrado daquele velho, que eu imaginava ser o dono do rádio a pilhas de minha infância. Fiquei com dó do velho, como se ele, na verdade, fosse um filho meu em outro país, sozinho, pois sem a nossa mãe - e acreditava que o velho, por ser velho, já não teria a dele -, sem nossa mãe somos todos sozinhos. Terminei meu jantar - arroz, feijão, farofa e fritas - e fui lavar a louça. Antes, mais que depressa, desta vez sem marcar círculos no chão de taco, fui correndo fechar as janelas; uma vez que, feito o vento que eu tentara segurar, pareceu-me impossível colocar o velho no colo e contar-lhe alguma coisa que fizesse cessar sua solidão (penso em minha mãe, sinto-a). E minha janela ficou uma janela comum, quase igual às tantas outras que existem por aí, pois havia ainda a louça por terminar de lavar.


Por vezes chegamos ao fim do túnel onde há um espelho e percebemos que existe outro reflexo, em segundo plano, um pouco já embaçado, mas ainda presente. Esse outro reflexo observa-nos atento; noutras vezes acusa-nos imensamente. Por conta do outro, acabamos por nos esquecermos do nosso próprio reflexo. Voltamos atrás, através do túnel, e procuramos não aquele reflexo, mas o que refletia. A luz que do início do túnel perturba-nos a vista e ficamos impressionados como antes não havíamos percebido que aquele reflexo podia se traduzir em uma silhueta ou sombra, ainda sem rosto, mas que nos chama a seguir adiante (para trás?), em busca para desvendar o simples mistério que um rosto pode conter.

O PASSAR DAS COISAS

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008 |

Só percebemos o momento
quando o buscamos no passado.
O presente à nossa volta entorpece-nos,
turva-nos os pensamentos.
É preciso pressa; agora.
Mais tarde,
quando tudo se tornar memória,
somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.
Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.
Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.


A SOMBRA

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Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.


MEMÓRIA DA INFÂNCIA DOS OUTROS

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008 |

Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…

Eu, sentado ao chão, prestando certa atenção dividida para ver se algum pormenor seria acrescentado nas repetições, comecei a ouvir outros relatos e considerações vindos do grupo vizinho de conversas: as mulheres. Uso aqui o termo mulheres, mas tanto estas quantos os homens eram todos muito novos, nos inícios dos vinte anos. Elas falavam de bolsas, novidades, espantos, e vez ou outra interferiam nas lembranças dos rapazes; riam-se, e depois fechavam-se em seu grupo novamente. Havia no ar a mistura das vozes altas dos dois grupos, causando-me certo entorpecimento.

Foi uma noite repetida. A mesma de outras reuniões com esse mesmo grupo. Deu-ma cá uma sensação de estar suspenso no tempo: era como voltar o vídeo alternando apenas o ambiente, mas mantendo as falas e os personagens.

Não ter memória é o máximo da solidão. Possuir memórias não compartilhadas, diferentes do grupo do qual se está participando, é como estar numa ilha cercado de impressões alheias por todos os lados. Fica-se a olhar o mar, pronto para acenar ao primeiro navio que o atrevesse.

A MULHER NÃO ESTÁ MORTA

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E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».

A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…

O OFÍCIO DA ESCRITA E A VIDA

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008 |

Existem diversas explicações para o que seria o ofício de escrever, mas aqui, nesta entrevista com José Saramago, no Jornal de Notícias, encontrei um trecho que me chamou a atenção, justo por conter também um pouco da relação deste ofício com a vida. A analogia é bem interessante.

Então, para si, escrever é um ofício que se confunde com a vida...

A literatura, como trabalho que é, enquanto se pode fazer, faz-se. Acabando-se a vida, acaba-se o trabalho. E, se esse trabalho tem a ver com literatura, é cortado nesse momento. No fundo, é como uma ave que é abatida em pleno voo. Vai voando e julga que vai chegar àquela árvore, onde quer pousar, mas, de repente, há um tiro de um caçador que a deita abaixo. A vida é isto.


UM SILÊNCIO DE SAUDADE RELUTANTE

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008 |

Este vento frio e úmido traz-me saudades das pedras geladas e cobertas de musgos das aldeias de Portugal. Quando eu passava as mãos sobre o verde incrustado por entre as pedras, sentia como se me aplainasse a pele, como se o tempo roçasse devagar brincando com meus poros, estes que me arrepiam agora, neste exato instante, numa prece de retorno.

Lembro-me bem da neblina descolorindo as casas, e gostava de atravessá-la como quem dispensa as pontes, pois aprendeu a voar, assim, de repente, como em uma dança de sonho.

Caíram-me agora à frente, por um fio desenrolado da memória, algumas folhas de eucalipto que lembro ter posto sob o travesseiro para que me purificassem a noite do extremo silêncio da ausência urbana; porém, noite esta, que trazia as conversas de animais obscuros, cortadas ao meio pelo som de uma moto a riscar com as unhas a auto-estrada, desfazendo todo o encanto, para que o silêncio mais uma vez arrebentasse em seguida, numa espécie de ciclo inevitável. É deste silêncio que escrevo. Um silêncio de saudade relutante; inesquecível.

BANHO, CHUVA E CAFÉ NA JANELA

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Fim de tarde. A chave gira na fechadura. Chega a casa após mais um dia de trabalho e não pensa em outra coisa a não ser o banho. Depois: um café na janela. Sempre preferiu os dias chuvosos, aquela chuvinha fina que não passa.

O banho. Sente a água morna cair sobre a cabeça e faz uma rápida e simples analogia com a chuva lá fora. Nenhuma imagem ou quadro mental aprimorado, apenas um pensamento passageiro, sem sentimentos - uma ponte.

Água na chaleira. Um. Dois minutos… Colherinha girando na xícara: sentido horário. Não liga para superstições, o sentido é apenas um hábito, reflexo de tantas vezes já ter olhado para o relógio durante o dia. Sentidos? Coloca uma cadeira rente à janela, apóia os braços e finge descobrir que já escureceu, enfim! Nenhuma outra satisfação programada além de tomar um café debruçado na janela e sentir o vento úmido da noite. Leva a xícara até a boca bem devagar, olhando fixamente para a espuma marrom grudada nas bordas - neste momento a boca relaxa. “Um bom café solúvel”, ele pensa. Pensamentos? Não. Apenas pontes.