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Bons Ventos!
José Roldão
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Corri com os braços mudos - à volta o silêncio da cena, como quem aguarda em suspenso o próximo ato -, mas foi como tentar segurar o vento, como quem ainda guarda qualquer esperança do tempo de criança. Depois de alguns círculos desenhados no piso de taco da sala de jantar - noite esfriando, janela aberta, muitas luzes de testemunhas –, sentei-me para jantar, olhando para a rua da minha janela humana. Foi uma amiga que o disse: "Esta janela não é igual às outras; é uma janela-humana, posso garantir". Dou-lhe o crédito da nomeação, apesar de acreditar que eu é que a humanizei de fato.
Parecia ouvir alguma música ao longe, algum rádio a pilhas, um homem velho a ouvir qualquer canção melancólica, imagino. Fico pensando, a dizer para mim mesmo: "Será o mesmo velho que eu imaginava, quando criança?". Não sei quanto a ele; porém ouso afirmar que eu, sim, era o mesmo. Não sempre, mas naquele momento de solidão. Lembrei de minha mãe lá longe, em outro país, e fiquei pensando que era assim que ela devia me imaginar aqui no Brasil. Mães têm esse sentimento, essa dose de solidão certa a aplicar aos filhos. Cá estava eu: sentindo-me mãe ao ter me lembrado daquele velho, que eu imaginava ser o dono do rádio a pilhas de minha infância. Fiquei com dó do velho, como se ele, na verdade, fosse um filho meu em outro país, sozinho, pois sem a nossa mãe - e acreditava que o velho, por ser velho, já não teria a dele -, sem nossa mãe somos todos sozinhos. Terminei meu jantar - arroz, feijão, farofa e fritas - e fui lavar a louça. Antes, mais que depressa, desta vez sem marcar círculos no chão de taco, fui correndo fechar as janelas; uma vez que, feito o vento que eu tentara segurar, pareceu-me impossível colocar o velho no colo e contar-lhe alguma coisa que fizesse cessar sua solidão (penso em minha mãe, sinto-a). E minha janela ficou uma janela comum, quase igual às tantas outras que existem por aí, pois havia ainda a louça por terminar de lavar.
Só percebemos o momento
quando o buscamos no passado.
O presente à nossa volta entorpece-nos,
turva-nos os pensamentos.
É preciso pressa; agora.
Mais tarde,
quando tudo se tornar memória,
somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.
Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.
Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.
Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.
Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…Então, para si, escrever é um ofício que se confunde com a vida...A literatura, como trabalho que é, enquanto se pode fazer, faz-se. Acabando-se a vida, acaba-se o trabalho. E, se esse trabalho tem a ver com literatura, é cortado nesse momento. No fundo, é como uma ave que é abatida em pleno voo. Vai voando e julga que vai chegar àquela árvore, onde quer pousar, mas, de repente, há um tiro de um caçador que a deita abaixo. A vida é isto.
Este vento frio e úmido traz-me saudades das pedras geladas e cobertas de musgos das aldeias de Portugal. Quando eu passava as mãos sobre o verde incrustado por entre as pedras, sentia como se me aplainasse a pele, como se o tempo roçasse devagar brincando com meus poros, estes que me arrepiam agora, neste exato instante, numa prece de retorno.
Fim de tarde. A chave gira na fechadura. Chega a casa após mais um dia de trabalho e não pensa em outra coisa a não ser o banho. Depois: um café na janela. Sempre preferiu os dias chuvosos, aquela chuvinha fina que não passa.Um Espelho no Fim do Túnel is wearing Longbeach Template | Original Design by Free CSS Templates | To Blogger by Template-Godown.